terça-feira, 25 de junho de 2013

"Apesar de você" Amanhã há de ser outro dia? "Pra não dizer que não falei das flores"








 7 PONTOS PARA ENTENDER POR QUE ASMANIFESTAÇÕES DE HOJE SÃO DIFERENTES (E UMA MESMA CANÇÃO)


  • Publicado por Augusto de Franco em 21 junho 2013 às 8:34 em A TERCEIRA INVENÇÃO DA DEMOCRACIA
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  • 7 PONTOS PARA ENTENDER POR QUE AS MANIFESTAÇÕES DE HOJE SÃO DIFERENTES (E UMA MESMA CANÇÃO)

    1 - Em 1970, quando Chico Buarque compôs Apesar de você, vivíamos em plena ditadura militar no Brasil. Agora, em junho de 2013, não (felizmente).
    2 - Lutávamos àquela época por liberdade (embora não estivéssemos ainda convertidos à democracia). Agora também (mas não lutamos hoje contra a limitada democracia realmente existente na sua essência, quer dizer, no que ela tem de democrático: as multidões que saem às ruas neste memorável junho de 2013 estão expressando um descontentamento com um velho sistema que - do modo como está organizado - sentem não mais representá-las).

    3 - Antes havia liderança, programas políticos, estratégia, táticas. Agora não há. Há milhares de micromotivos diferentes que se combinam e recombinam por emergência.

    4 - Antes não vivíamos em uma sociedade altamente conectada (e nem havia as ferramentas virtuais que permitem a interação em tempo real ou sem-distância). Agora vivemos no dealbar de uma sociedade-em-rede (e temos a Internet e as midias sociais, como o Facebook, o Twitter, além da telefonia celular).

    5 - Antes a dinâmica era mais adesiva e participativa. Agora é mais interativa.

    6 - Antes havia assembleísmo, recrutamento para organizações hierárquicas, militantes obedientes às suas direções que atuavam como agentes no meio da "massa" para conduzi-la. Agora temos interativismo (ativismo interagente, no qual cada pessoa comparece nos seus próprios termos e desobedece aos que querem mandá-la) compondo uma espécie de sistema nervoso fractal de imensas multidões.

    7 - Antes a fenomenologia da interação - a contaminação que se alastra de forma distribuída, seguindo uma dinâmica epidemiológica, peer-to-peer - não podia se manifestar de modo perceptível (como reverberação, múltiplos laços de realimentação de reforço, clustering, swarming, cloning, crunching). Agora a fenomenologia da interação está acelerada, contraída no tempo de sorte a poder ser percebida e assistimos, em vários lugares do mundo, a incidência cada vez mais frequente de aglomeramentos, enxameamentos, contaminação viral por proximidade, imitamento nas vizinhanças e contração do tamanho social do mundo (ou redução dos graus de separação).

    Mesmo com todas essas diferenças, por algum motivo, a velha canção de Chico Buarque parece expressar a mesma emoção das multidões que vão às ruas, 43 anos depois.

    E podemos cantar nas praças outra vez.

    APESAR DE VOCÊ

    Chico Buarque (1970)


    Hoje você é quem manda
    Falou, tá falado
    Não tem discussão
    A minha gente hoje anda
    Falando de lado
    E olhando pro chão, viu
    Você que inventou esse estado
    E inventou de inventar
    Toda a escuridão
    Você que inventou o pecado
    Esqueceu-se de inventar
    O perdão
    Apesar de você
    Amanhã há de ser
    Outro dia
    Eu pergunto a você
    Onde vai se esconder
    Da enorme euforia
    Como vai proibir
    Quando o galo insistir
    Em cantar
    Água nova brotando
    E a gente se amando
    Sem parar
    Quando chegar o momento
    Esse meu sofrimento
    Vou cobrar com juros, juro
    Todo esse amor reprimido
    Esse grito contido
    Este samba no escuro
    Você que inventou a tristeza
    Ora, tenha a fineza
    De desinventar
    Você vai pagar e é dobrado
    Cada lágrima rolada
    Nesse meu penar
    Apesar de você
    Amanhã há de ser
    Outro dia
    Inda pago pra ver
    O jardim florescer
    Qual você não queria
    Você vai se amargar
    Vendo o dia raiar
    Sem lhe pedir licença
    E eu vou morrer de rir
    Que esse dia há de vir
    Antes do que você pensa
    Apesar de você
    Amanhã há de ser
    Outro dia
    Você vai ter que ver
    A manhã renascer
    E esbanjar poesia
    Como vai se explicar
    Vendo o céu clarear
    De repente, impunemente
    Como vai abafar
    Nosso coro a cantar
    Na sua frente
    Apesar de você
    Amanhã há de ser
    Outro dia
    Você vai se dar mal
    Etc. e tal
    La, laiá, la laiá, la laiá




    Pra não dizer que não falei das flores - Geraldo Vandré (1968)

    Caminhando e cantando e seguindo a canção
    Somos todos iguais braços dados ou não
    Nas escolas nas ruas, campos, construções
    Caminhando e cantando e seguindo a canção

    Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
    Quem sabe faz a hora, não espera acontecer

    Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
    Quem sabe faz a hora, não espera acontecer

    Pelos campos há fome em grandes plantações
    Pelas ruas marchando indecisos cordões
    Ainda fazem da flor seu mais forte refrão
    E acreditam nas flores vencendo o canhão

    Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
    Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

    Há soldados armados, amados ou não
    Quase todos perdidos de armas na mão
    Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição
    De morrer pela pátria e viver sem razão

    Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
    Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

    Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
    Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

    Nas escolas, nas ruas, campos, construções
    Somos todos soldados, armados ou não
    Caminhando e cantando e seguindo a canção
    Somos todos iguais braços dados ou não
    Os amores na mente, as flores no chão
    A certeza na frente, a história na mão
    Caminhando e cantando e seguindo a canção
    Aprendendo e ensinando uma nova lição

    Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
    Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

    Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
    Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.


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